Areia é uma coisa interessante. A maioria de nós habita imóveis que contem areia em sua composição, e muitos de nós adoram se deitar na areia da paria. Há areia varrendo cidades, impulsionada pela força da natureza, e há areia presa na sola do seu sapato direito. Do esquerdo também.
Mas... já parou para pensar que essa tal areia nem sempre teve essa forma? Pois é, provavelmente ela fez parte de um grão maior, alguma rocha que testemunhou mais fatos históricos que o Oscar Niemeyer. Engraçado é o fato de o próprio Oscar ter encontrado muitos usos para o farelo de pedra.
Isso me leva a pensar que só se constrói algo a partir de alguma destruição. A sua casa já foi pedra, antes de ser tijolo. Um livro já foi árvore. Essa parece ser uma verdade que alcança quase todos os cenários da nossa existência, indo de encontro com o velho ditado que diz que "Nada se cria".
Normalmente nós tomamos posse dos destroços alheios e "criamos" novas coisas. Reordenamos o caos em nome de coisas que nos parecem úteis, ou que nos fazem sentido. A verdade é que precisamos das sentido ao mundo, para nos distrairmos de nossos próprios cacos.
Me pediram para falar de amor
Amor é areia. Antes de explodir, era amizade, interesse ou mesmo implicância. Era algo que se quebrou, deixou de ser... virou areia. Amor não tem forma: Ela é soprado pelo vento, e cobre o chão do mundo. Está preso na sola do seu sapato direto. Do esquerdo também.
Quando o amor encontra seu arquiteto, de um tipo diferente do Niemeyer (Que também ama, ou amou), ele ganha forma: Vira bloco, vira tijolo. Ergue paredes e telhado, forra o chão da praia onde você acaba se deitando.
Areia o vento leva
Nem toda areia ganha ordem nos padrões humanos, digamos assim. Areia o vento leva, a água espalha. Areia no seu sapato direito é varrida para fora de casa, posta em sacos plásticos e enviada para longe. A do esquerdo também.
Algumas pessoas ficam sozinhas com sua areia: Colocam em garrafinhas e fazem belos desenhos coloridos. A areia fica na estante, onde alguém olha e diz "Que bonito", mas depois vai embora. Areia em garrafinhas não abriga corações, é represa de si mesma, pois a garrafinha de vidro era areia.
Amor nasce do caos
Aquela pedra enorme não é amor. Ela não se desloca, ela derruba quem a tenta escalar. A pedra cheia de limo, acariciada pelo vento, é peso e obstáculo, é ruído e perigo iminente, mas não é amor. Amor será, ou seria, amor está contido na pedra.
O vento, a chuva, as forças "destrutivas" da natureza sabem disso, e assim martelam e criam areia, para que mão hábeis e corações solitários construam casas, construam amor. Mas... toda casa só é lar se alguém aceita morar nela. Todo amor só faz sentido se encontra portas abertas, se é aceito.
Casa a chuva derruba, se não houver vida nela. Amor fica na garrafinha, se ninguém o bebe. Imóveis feitos em pedras, amor que empedra. Tudo volta ao inicio: Vento e chuva. Caos. Por isso tantos corações partidos: Só com os cacos é possível recriar.
Criando o caos na base da martelada
Quebre sua pedra. Dê sucessivas marretadas e se livre desse peso. Aquela pedra enorme não é amor, te disse isso alguns parágrafos atrás. Se quer construir amor, seu futuro lar, precisa de areia. Se livre das garrafinhas. Jogue areia ao vento e deixe que ela se grude no supracitado sapato direito de alguém. Do esquerdo também.
Se não fizer isso, vai parecer o Fred Flintstone morando num pedregulho.












