quinta-feira, 22 de julho de 2010

Memórias Rodoviárias


Para você, que me esperou na rodoviária.
 
Eu me lembro de atravessar a noite em um ônibus. Isso faz muito tempo, mas ainda assim é como se um dia não houvesse passado desde então. As estradas podem ser longas, mas durante a noite todos os cenários se parecem.

Eu olhava pela janela (Eu comprei passagem para a poltrona da janela, e isso diz muito sobre mim. Ou não.) e vi o dia se tornar a noite já citada. Vi as estrelas se acenderem, vi os companheiros de viagem, sempre anônimos, embarcarem.

Ali, naquela poltrona, eu só tinha você no pensamento. Nos ouvidos eu tinha headphones que através de canções mostravam o quanto meus músicos preferidos me entendiam, mesmo que suas canções tivessem sido escritas antes de meu nascimento. Eu era um jovem cheio de sonhos, apaixonado, e com onze horas de ônibus pela frente.

Atravessar a noite, pulando de cidade em cidade, acompanhado dos mais diversos rostos, foi uma experiência muito rica para mim. Okay, não é como viajar de moto pela Route 66, mas mesmo assim era a estrada e eu. Born to be wild.

Meu MP3 Player tinha umas mil músicas, só não tinha bateria para executar todas elas. Sendo assim, a noite era dividida em duas etapas: Pensamentos despertados por canções, e pensamentos contemplativos sem trilha sonora.

Eu pensava coisas demais, e não conseguia dormir naquela jamanta em movimento, dessa forma longas eram as contemplações. Não vou te dizer que eu dedicava as horas bolando planos de dominação mundial, ou mesmo compondo um soneto. Eu pensava nela, sonhava acordado, o ônibus simplesmente sumia. Os passageiros deixavam de existir, as luzes de leitura se apagavam. Tá, o moleque que chutava minha poltrona ficou presente por muito tempo, mas foi a única exceção.

Eu via luzes no céu, eu via luzes nas cidades. Nunca pensei que conheceria tantas estações rodoviárias, mas o fiz. Não conheço as cidades, mas as rodoviárias estão no meu banco de memórias. Memórias rodoviárias.

Hoje paro para pensar nos passageiros que nunca me importaram. Pessoas repletas de histórias, e que assim como eu, tinha motivos para estar ali, transitando pelas eternas estradas do Paraná. Mães indo visitar os filhos, filhos deixando o lar em definitivo. Casais viajando juntos, ela indo para casa, ele fazendo o sacrifício de visitar a sogra (Por isso o mau humor, provavelmente).

Enfim, a noite passava, e cada metro a menos no meu percurso me enchia de ansiedade. A verdade é que naquele tempo só o destino importava, e como um radar o coração disparava cada vez que ficava mais próximo de desembarque. Assim são essas essas coisas.

Hoje eu não viajo mais. Há anos não sei como são esses ônibus. Será que oferecem lanchinhos, como nos aviões? Será que os MP3 players já aguentam até o desembarque? Será que as pessoas, vulgarmente conhecidas por "passageiros" ainda se emocionam kilometro por kilometro?

Mais importante: Será que, assim como ela o fazia, ainda há apaixonados esperando o ônibus que chega?

2 comentários:

Ana Carolina disse...

E para mim, que esperou você no aeroporto????

O Trovador disse...

Viagens tem sempre boas histórias! Mesmo que sejam apenas serras passando no horizonte.

Boa história, mestre!