Você já parou? Isso mesmo, quero saber se alguma vez na vida você ficou parado. Vivemos correndo para todas as direções, pensando e sentindo todo o tipo de coisas. Você ama e odeia, sente saudades e repulsas. Se preocupa com dinheiro, com saúde e com a solidão. Então eu pergunto novamente: Você já parou?
Resolvi parar, neste momento. Quantas vezes você prestou atenção na própria respiração? Pois é, o ar entra e é expulso, como que por mágica, não? Você nunca se lembra de respirar, mas respira. Se não respira tenho medo de você.
Parado aqui eu me percebo. Consigo olhar para cada coisa que me importa, e deste ponto de vista nada parece tão forte ou vital. Percebo minha tristeza e em suas raízes encontro certa futilidade. Aquele insulto, aquela falha, aquela despedida... Nada parece tão complicado, quando se observa com calma, assim, parado. Tudo o que foi realmente deveria pesar no dia de hoje?
Olhando para as alegrias, descubro que elas não duram tanto quanto as mágoas. Por quê? Uma lágrima e um sorriso sincero deveriam ter o mesmo peso na memória, mas não deveriam ter tanto peso no dia de hoje, quanto o café da manhã.
Hoje eu resolvi enxergar as coisas como são, e não como foram, deveriam ter sido ou como deveriam ser. Me olhando no espelho vejo que nada do que me foi dito, bom ou mau, exala dos meus poros. Nós somos neutros, mas nos moldamos pelas escolhas que fazemos. Nós somos algemados por mesquinharias.
Eu quero! Eu preciso, eu mereço... Será? As vezes me percebo frustrado por ter a grama menos verde que meu vizinho. Às vezes penso tanto em como eu deveria ser, que me esqueço de ser qualquer coisa... e passo os dias assim, existindo em quanto matéria, mas sem ser humano.
Digressão para cutucar a solidão
Estar só é como um tipo de prisma. Conforme a luz bate, se reflete de uma maneira diferente. Solidão pode ser algo benéfico quando você precisa se encontrar, passar mais tempo dando atenção a si mesmo.
Solidão pode virar solitude, e nem o Lobão vai saber a hora de distinguir uma coisa da outra. Nessas horas você escreve textos sobre solidão. Ouve músicas e lê textos cheios de profundidade, se acha um pensador antigo.
Mas e quando percebe que a solidão deixou de ser opção? Ninguém quer viver sozinho, em um cantinho... E então vem a guerra. Sua alma pede companhia, e sua mente sem paz resolve agir em desespero. Tenta se agarrar aos brotos das plantas que surgem, que fracas pela pouca idade, se arrebentam. E então? Está perdido? Que tal parar um pouco, e olhar as coisas como são?
Vê com os olhos.
Pare. Percebe que não tem tanta coisa acontecendo? Percebe que está inteiro, respirando... sem crise? Pois é, você nunca para a ponto de se perceber, a ponto de perceber quem tem a faca e o queijo na mão.
Aquela conta para pagar será paga, então não fique sofrendo por antecedência. Sim, você está cutucando aquela velha ferida, não está? Ela já sarou, perceba, só que você se apegou a ela. Você se apegou a dores que nem mesmo sentiu. Ainda. Preso assim ao risco futuro, nada faz. Não sai do lugar, e acaba visitando dores e alegrias que não deveriam causar tanto ruído nas suas decisões.
Deixa ir. Deixa tudo isso voltar para o lugar certo: Passado no passado, futuro lá na frente. Quem é você? Já notou que respira? Sente frio ou calor agora, sede e até vontade de comer chocolate.
Você ai, lendo e sentindo, coçando a nuca sem se preocupar com o que tem na bagagem... Esse é você de verdade. Te vi por um segundo, agora já voltou a sentir passado e futuro... Pare! Deixa tudo isso ir.
O ar que respiro agora causa uma sensação boa. A água tem uma textura ótima. Meu coração bate para bombear o sangue, o oxigênio chega ao meu cérebro e eu me sinto vivo. Estar vivo é uma sensação única, uma sensação que só pude experimentar quando parei de reparar no resto do mundo.
Agora eu olho meu sentimento, esse misto de paixão e fúria, esse misto de alegria, apreensão e saudade. Noto que nunca separei os meus sentimentos, sempre deixei tudo jorrar misturado. A quem devo amor entrego um "Mix", e o mesmo entrego a quem devo apenas respeito. Entro esse "Mix" de sentimentos para tudo ao meu redor, quando deveria entregar o que é devido a cada um de maneira particular.
Parado aqui consigo perceber cada gota de sentimento, mas ainda é cedo para dizer que sei separar tudo. Só sei ser um, e como um eu ajo. A verdade é que não paro com freqüência, e não reparo com freqüência. A vida nos faz correr, quando não prestamos atenção nela. Estou treinando, errando e persistindo. Preciso parar de projetar nos outros a minha felicidade, e até minha tristeza.
Preciso deixar de escrever neste instante, pois não estou parado o suficiente. Parei.

1 comentários:
Embora eu seja parada por natureza, e por isso tenha que enfrentar minha mãe e o sistema capitalista e o resto do mundo querendo me passar pra frente, pensando ser essa minha inércia mera lerdeza, foi bom ler isso :)
Ando precisando filtrar minhas mágoas, redirecionar minhas preocupações e esse texto meio que foi uma tradução do que tenho posto em prática. Uma explicação teórica em detalhes do que tenho feito.
Parabéns e obrigada!
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